Beca, ela

“Há um impulso de fé cega que vai se formando nas pessoas, sabe? Algo que poderíamos chamar de auto-estima, ou confiança em si mesmo, não sei como chamar. Ou seja, isso é quase a matéria de que os sonhos são feitos. É o que nos faz resistir, ter a convicção de que as coisas vão dar certo no trabalho ou com as amigas. É um ponto a partir do qual podemos construir algo sólido, algo que suporte o movimento das coisas de fora. Graças a isso, podemos nos sentar um dia diante de uma mesa e escrever algumas idéias para um projeto, e podemos receber ordens do chefe, e ligar para alguém para convidá-lo para sair, e chegar em casa e experimentar um vestido diante do espelho. Temos que ter uma coragem enorme, às vezes uma temeridade imensa para ficar na frente de um espelho e olhar, olhar. Percebeu que ninguém consegue se olhar por muito tempo? Ninguém, ninguém. Nem sequer a pessoa mais bonita. Apenas um vislumbre, mas não muito tempo. Mas isso é um problema de cada uma, conseguir fazer com que suas pernas a sustentem. Ter as pernas bem colocadas sobre o mundo e poder resistir a ele.”
(Rebeca em “O sussurro da mulher-baleia”, de Alonso Cueto)

A minha meta para o dia do jogo da seleção era terminar de ler o livro acima. E boas páginas foram lidas durante a viagem para casa, que durou até o final do primeiro tempo. Mas graças ao livro, fiquei um tempão no ponto de ônibus, depois esperei que ele super lotasse, ouvia lá fora as vuvuzelas e só pensei que felizmente tinha o livro para ler. E demorei para ler as últimas páginas, com receio de que meu companheiro acabasse antes do destino final. Apesar de breve, a companhia de Rebeca foi bem interessante. O repúdio de Veronica, sua suposta amiga de infância, nos faz lembrar todo o contexto de “moralmente correto” que uma pessoa carrega pela vida inteira. Sempre que cometemos um erro, tratamos de nos enganar e arrumar desculpas para nos encaixarmos no “moralmente correto”. E a culpa fica ali escondida embaixo do tapete, mas sempre aparece nos pesadelos.

Leitura rápida, perfeita para bancos de ônibus, demorei umas 4 viagens para ler, acho. Se eu resumir a história aqui, não parece tão interessante. É como aquela piada que só tem vida na interpretação do piadista. No início me lembrou o maravilhoso “Misery“, do Stephen King, mas depois tomou um rumo diferente. Apesar de ainda preferir o “Misery”, Rebeca tem lá o seu charme, principalmente por tratar de sociopatias, discriminação e preconceitos que vemos ai, todos os dias, nesse mundão de Deus sem fim.

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